Ao meu lado uma xícara. Do outro, um guardanapo.
Fiquei entre os dois, parada. Hora olhava pra um, hora olhava pro outro.
Ela, quietinha, mantinha uma postura elegantérrima. Ele não parecia se importar tanto com os modos e espreguiçava-se sobre a mesa.
Pelo menos estava dobrado, o que mostrava uma certa fineza.
Tudo em nome do respeito que tinha pela xícara. Não pelo convidado que sujaria a sua boca com o chá e depois o usaria para limpar-se.
Pelo visto não haveria convidados hoje. Apenas uma xícara posta, com pratinho e guardanapo. Depois chegou o resto.
Bule fumegante, açucareiro, um outro pratinho com alguns biscoitos.
Todos compondo a pequena mesa no centro do jardim.
Essa morosidade dos domingos sempre me deixa confortável.
Reflito o mundo todo de cabeça pra baixo e me sinto leve.
O chá de jasmim alivia o bule, aquece a xícara, e aromatiza o dia.
Merulho nos cristais do açucareiro, carrego o doce da vida e me afogo em água quente.
Rodopio, de ponta-cabeça. Duas batidinhas e retorno pro canto da mesa.
Ao lado da xícara e do guardanapo.
Esses domingos preguiçosos são deliciosos quando apreciados ao lado da graciosidade de uma xícara, da vadiagem do guardanapo,
do calor do chá, da doçura do açúcar e, claro, não deixando a humildade de lado, da sutileza de uma colher de chá.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
Desassossego
acontece um embrulho dentro de mim. uma agonia suprimida.
vai se expandindo por dentro até que todo o resto fica comprimido.
o peito aperta um pouco - é o mais espremido - e fica sozinho.
sinto fome, mas não posso comer. sinto frio, mas falta o casaco pra me aquecer.
aí todo o interior fica melancólico. sussurra baixinho o que tá faltando e o resto do corpo grita essa falta.
os olhos entregam a ausência dos girassóis. ficam nublados. de um verde quase cinza.
os dedos tateando, perdidos, buscando um calor que não tem. ficam gelados, desorientados.
os pés tocam o chão, que também é frio. ficam com frio.
parece que o sol deu uma volta e esqueceu de voltar e as nuvens ficaram estáticas. pedregosas no céu.
deixam o dia branco e leitoso e o estômago fica com um buraco.
os lábios naufragos, suspirando, esperando.
o contorno foi ficando turvo, embaçado.
as mãos procurando outras mãos. não desistiram, apenas sossegaram.
uma hora o sol vem e esse embrulho dentro de mim se vai.
enquanto isso os olhos ficam anuviados. e os lábios esperançosos.
desacompanhar, às vezes, dói.
vai se expandindo por dentro até que todo o resto fica comprimido.
o peito aperta um pouco - é o mais espremido - e fica sozinho.
sinto fome, mas não posso comer. sinto frio, mas falta o casaco pra me aquecer.
aí todo o interior fica melancólico. sussurra baixinho o que tá faltando e o resto do corpo grita essa falta.
os olhos entregam a ausência dos girassóis. ficam nublados. de um verde quase cinza.
os dedos tateando, perdidos, buscando um calor que não tem. ficam gelados, desorientados.
os pés tocam o chão, que também é frio. ficam com frio.
parece que o sol deu uma volta e esqueceu de voltar e as nuvens ficaram estáticas. pedregosas no céu.
deixam o dia branco e leitoso e o estômago fica com um buraco.
os lábios naufragos, suspirando, esperando.
o contorno foi ficando turvo, embaçado.
as mãos procurando outras mãos. não desistiram, apenas sossegaram.
uma hora o sol vem e esse embrulho dentro de mim se vai.
enquanto isso os olhos ficam anuviados. e os lábios esperançosos.
desacompanhar, às vezes, dói.
sábado, 6 de novembro de 2010
Enquanto existe a possibilidade de dar-se conta do que está na frente, fecham-se os olhos.
Se houver, ainda, a chance de se escutar o que tem pra ser dito, tampam-se os ouvidos.
Numa chuva fantasmagórica ouve-se uma risada distante.
O medo faz com que se queira correr pra qualquer direção, mas os galhos finos das árvores prendem-se na malha fina da roupa e na superfície da pele.
Arranham de leve e a tez branca ganha riscos vermelho vivo.
Rasga-se o vestido para limpar o ferimento, mas friccionar o pano sobre o corte arde até couro cabeludo. Apalpar os braços e coxas de maneira suave parece ser a solução.
Agora a ameaça da chuva reverte o ciclo.
As nuvens escuras deixam o céu arroxeado e os contornos das coisas vão se perdendo.
Abrem-se os olhos na espera da menor captação de imagem.
Aguçam-se os ouvidos para qualquer ruído.
Silêncio e escuridão.
Agarra-se às raízes das árvores. Estas, fortes, firmes no chão. Observa as nuvens formarem bombas que estouram e fazem seu corpo todo se contrair a cada estrondo.
As raízes resistentes garantem certa segurança. Unir-se a elas até virar um só talvez seja o caminho.
Cristais arredondados caem do céu incessantemente, como uma cortina translúcida que finge deixar ver as coisas.
Molha-se, resfria o corpo. Sabe que se largar os troncos das árvores a chuva vai arrastá-la. Não conseguirá parar, pela força da água. Então, tendo em vista o seu medo e a sua fragilidade, vai soltando vagarosamente, dedo após dedo, suas mãos da árvore.
Rola correnteza abaixo, num rio de leite. Sente os cabelos revirados, embolados. Bolhas correndo pelo rosto, colando nos cílios e entrando no nariz.
Os olhos piscando num leito de chuva. Enquanto o medo não vai embora, sente um frio na barriga e abre bem os braços.
Reconhece as duas emoções: vertigem e liberdade.
Sorri, confusa. Vira peixe e engole o rio. Abre as pernas e abraça a lua.
Se houver, ainda, a chance de se escutar o que tem pra ser dito, tampam-se os ouvidos.
Numa chuva fantasmagórica ouve-se uma risada distante.
O medo faz com que se queira correr pra qualquer direção, mas os galhos finos das árvores prendem-se na malha fina da roupa e na superfície da pele.
Arranham de leve e a tez branca ganha riscos vermelho vivo.
Rasga-se o vestido para limpar o ferimento, mas friccionar o pano sobre o corte arde até couro cabeludo. Apalpar os braços e coxas de maneira suave parece ser a solução.
Agora a ameaça da chuva reverte o ciclo.
As nuvens escuras deixam o céu arroxeado e os contornos das coisas vão se perdendo.
Abrem-se os olhos na espera da menor captação de imagem.
Aguçam-se os ouvidos para qualquer ruído.
Silêncio e escuridão.
Agarra-se às raízes das árvores. Estas, fortes, firmes no chão. Observa as nuvens formarem bombas que estouram e fazem seu corpo todo se contrair a cada estrondo.
As raízes resistentes garantem certa segurança. Unir-se a elas até virar um só talvez seja o caminho.
Cristais arredondados caem do céu incessantemente, como uma cortina translúcida que finge deixar ver as coisas.
Molha-se, resfria o corpo. Sabe que se largar os troncos das árvores a chuva vai arrastá-la. Não conseguirá parar, pela força da água. Então, tendo em vista o seu medo e a sua fragilidade, vai soltando vagarosamente, dedo após dedo, suas mãos da árvore.
Rola correnteza abaixo, num rio de leite. Sente os cabelos revirados, embolados. Bolhas correndo pelo rosto, colando nos cílios e entrando no nariz.
Os olhos piscando num leito de chuva. Enquanto o medo não vai embora, sente um frio na barriga e abre bem os braços.
Reconhece as duas emoções: vertigem e liberdade.
Sorri, confusa. Vira peixe e engole o rio. Abre as pernas e abraça a lua.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Acordei
Acordei no meio da noite com o coração espancando o meu peito. Meu ritmo cardíaco estava tão acelerado que imaginei que eu pudesse ter um enfarte.
Continuei deitada na cama, sem me mover, apenas escutando como a adrenalina podia ter um som tão alto no meio da madrugada.
Como se um tambor de escola de samba soasse descontroladamente dentro de mim.
Não só no meu peito, mas se expandindo até minhas mãos, meus dedos, minhas pernas e a minha cabeça, que latejava.
Coloquei as mãos sobre o peito e fiquei esperando que meu corpo fosse, aos poucos, se acalmando. Não me lembro de onde veio esse impulso emocinal.
Tentei me lembrar do que eu estava sonhando, mas não consegui trazer pro meu consciente nenhum pesadelo, ou vertigem.
Também não havia nenhum outro som no meio da noite que pudesse ter me feito acordar de supetão.
Meus nervos estavam à flor da pele e não existia nenhum motivo concreto pra que eu pudesse fazer o que costumo fazer comigo quando me encontro nessas situações:
Começar uma conversa longa e pausada comigo mesma, me explicando que não há motivo pra que eu me assuste. Eu simplesmente não conseguia me consolar.
Permaneci no escuro, deitada, com o coração pulando nas minhas mãos, que tentavam apertá-lo de volta pra dentro de mim.
Durante esse tempo que escorria vagarosamente, como um conta-gotas, fiquei olhando para o teto branco.
O teto todo branco, que se parecia com o meu pensamento.
Por um momento, confundi os dois, e já não sabia se eu olhava para o teto ou para o meu pensamento.
Era uma tela em branco, esperando por uma pincelada. Ou uma tela de projeção de cinema, esperando reproduzir o filme, que nem demorou muito pra começar.
Comecei a assistir a um filme ritmado pelas minhas batidas cardíacas, sempre aceleradas, onde eu caminhava. Não havia muitas coisas pra eu olhar nesse trajeto.
Aliás, tinha um milhão de coisas que se jogavam na minha frente, batiam contra o meu rosto, mas eu não as percebia e continuava uma caminhada acelerada em alguma direção duvidosa.
Eu andava e pisava em uns cacos de vidro, que faziam os meus pés descalços sangrarem, mas eu não sentia nenhuma dor.
Havia também muitos sons, vozes e música alta por onde eu passava, mas eu simplesmente não ouvia.
De repente eu parei em frente a um espelho. Fiquei me olhando, mas minha imagem não estava refletida. A única coisa que me mirava era uma máscara.
Fiquei com medo e quebrei o espelho. Olhei para o mosaico de imagens compostas no chão. Como fragmentos de uma caminhada que já não fazia mais tanto sentido.
Senti um gosto amargo na boca e me deitei ao lado de alguém que estava olhando para um teto branco, com as mãos sobre o seio, como se não quisesse deixar o coração escapulir.
Senti o medo dela. Demos as mãos e ficamos olhando para uma tela toda branca.
Cada vez mais branca, conforme o dia ia amanhecendo e a luz do sol ia penetrando a janela e clareando o teto.
Confundi o teto, a tela e o meu pensamento. Depois confundi o meu pensamento com o da mulher deitada ao meu lado.
Depois confundi nossas mãos e percebi que a única mão que eu apertava era a minha, que estava apertada contra o meu peito.
Senti que meu coração já não estava mais tão acelerado. Fechei os olhos e acho que consegui dormir.
Continuei deitada na cama, sem me mover, apenas escutando como a adrenalina podia ter um som tão alto no meio da madrugada.
Como se um tambor de escola de samba soasse descontroladamente dentro de mim.
Não só no meu peito, mas se expandindo até minhas mãos, meus dedos, minhas pernas e a minha cabeça, que latejava.
Coloquei as mãos sobre o peito e fiquei esperando que meu corpo fosse, aos poucos, se acalmando. Não me lembro de onde veio esse impulso emocinal.
Tentei me lembrar do que eu estava sonhando, mas não consegui trazer pro meu consciente nenhum pesadelo, ou vertigem.
Também não havia nenhum outro som no meio da noite que pudesse ter me feito acordar de supetão.
Meus nervos estavam à flor da pele e não existia nenhum motivo concreto pra que eu pudesse fazer o que costumo fazer comigo quando me encontro nessas situações:
Começar uma conversa longa e pausada comigo mesma, me explicando que não há motivo pra que eu me assuste. Eu simplesmente não conseguia me consolar.
Permaneci no escuro, deitada, com o coração pulando nas minhas mãos, que tentavam apertá-lo de volta pra dentro de mim.
Durante esse tempo que escorria vagarosamente, como um conta-gotas, fiquei olhando para o teto branco.
O teto todo branco, que se parecia com o meu pensamento.
Por um momento, confundi os dois, e já não sabia se eu olhava para o teto ou para o meu pensamento.
Era uma tela em branco, esperando por uma pincelada. Ou uma tela de projeção de cinema, esperando reproduzir o filme, que nem demorou muito pra começar.
Comecei a assistir a um filme ritmado pelas minhas batidas cardíacas, sempre aceleradas, onde eu caminhava. Não havia muitas coisas pra eu olhar nesse trajeto.
Aliás, tinha um milhão de coisas que se jogavam na minha frente, batiam contra o meu rosto, mas eu não as percebia e continuava uma caminhada acelerada em alguma direção duvidosa.
Eu andava e pisava em uns cacos de vidro, que faziam os meus pés descalços sangrarem, mas eu não sentia nenhuma dor.
Havia também muitos sons, vozes e música alta por onde eu passava, mas eu simplesmente não ouvia.
De repente eu parei em frente a um espelho. Fiquei me olhando, mas minha imagem não estava refletida. A única coisa que me mirava era uma máscara.
Fiquei com medo e quebrei o espelho. Olhei para o mosaico de imagens compostas no chão. Como fragmentos de uma caminhada que já não fazia mais tanto sentido.
Senti um gosto amargo na boca e me deitei ao lado de alguém que estava olhando para um teto branco, com as mãos sobre o seio, como se não quisesse deixar o coração escapulir.
Senti o medo dela. Demos as mãos e ficamos olhando para uma tela toda branca.
Cada vez mais branca, conforme o dia ia amanhecendo e a luz do sol ia penetrando a janela e clareando o teto.
Confundi o teto, a tela e o meu pensamento. Depois confundi o meu pensamento com o da mulher deitada ao meu lado.
Depois confundi nossas mãos e percebi que a única mão que eu apertava era a minha, que estava apertada contra o meu peito.
Senti que meu coração já não estava mais tão acelerado. Fechei os olhos e acho que consegui dormir.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
27 de setembro
Duas senhoras entram numa cabine de trem. Sentam-se frente-a-frente, mas ainda não se viram.
Uma ajeita alguma coisa dentro da bolsa enquanto a outra repousa o olhar sobre ela. De repente a reconhece. Leva um susto e sente um frio na barriga.
Quando a outra finalmente encontra os óculos e os coloca se fitam durante um longo período de uns 3 segundos. A senhora de óculos sorri. A outra sorri de volta.
Quantos anos se passaram. Dão as mãos e sentem a pele fina uma da outra. Os nódulos dos dedos muito mais aparentes do que 50 anos atrás.
A primeira a olhar tira de dentro da bolsa as fotos dos netos e mostra à outra.
Seus olhos se enchem de ternura. Retira seus familiares de dentro da bolsa também e os apresenta.
Tantos anos se passaram. No meio das fotos e das familias misturadas encontram uma foto das duas, cada uma com seus 17 anos.
Os cabelos castanhos e longos, os sorrisos largos, uma sentada num banco e a outra por trás, abraçando-a pelo pescoço.
Deram as mãos novamente pra sentir de novo o calorzinho daquela amizade. Algumas lágrimas ameaçam cair, mas elas dão um tapinha na mão uma da outra como quem diz "chorar não pode!".
Enquanto o trem corre em direção ao futuro das duas senhoras, aquele vagão corre contra o tempo e volta para um passado onde elas duas podem ser amigas novamente.
Um tempo onde iam para casa uma da outra, fechavam-se no quarto e passavam horas intermináveis conversando sobre festas, namorados, cabelo, amigos, medos, idéias, sonhos.
Desabafavam sobre perdas, sobre o mundo que as envolvia, sobre corações partidos, sobre sonhos, expectativas, desejos.
Num tempo onde não havia uma familia formada, não haviam casas que elas mesmas tinham contruido, cada uma em uma cidade diferente.
Não haviam dois maridos, filhos, nem uma mãe doente e dois pais falecidos.
Não havia um divórcio, não havia sofrimento, não havia um filho que foi morar no Japão, nem uma filha que virou budista.
Não havia distância física e muito menos espiritual.
O vagão inteiro ganhou o cheiro desse tempo, onde as tarde tinham cheiro do bolo que a mãe preparava para as duas e as manhãs tinham o cheiro do orvalho.
Antes do trem chegar na estação, elas não estavam mais naquela cabine. Tinham sido transportadas para uma outra época, onde aquela amizade podia ser recuperada.
Ali só restavam fotos de família, um óculos e um leve aroma de terra molhada. As gotas da chuva desenhando os trilhos do trem na janela de vidro.
Uma ajeita alguma coisa dentro da bolsa enquanto a outra repousa o olhar sobre ela. De repente a reconhece. Leva um susto e sente um frio na barriga.
Quando a outra finalmente encontra os óculos e os coloca se fitam durante um longo período de uns 3 segundos. A senhora de óculos sorri. A outra sorri de volta.
Quantos anos se passaram. Dão as mãos e sentem a pele fina uma da outra. Os nódulos dos dedos muito mais aparentes do que 50 anos atrás.
A primeira a olhar tira de dentro da bolsa as fotos dos netos e mostra à outra.
Seus olhos se enchem de ternura. Retira seus familiares de dentro da bolsa também e os apresenta.
Tantos anos se passaram. No meio das fotos e das familias misturadas encontram uma foto das duas, cada uma com seus 17 anos.
Os cabelos castanhos e longos, os sorrisos largos, uma sentada num banco e a outra por trás, abraçando-a pelo pescoço.
Deram as mãos novamente pra sentir de novo o calorzinho daquela amizade. Algumas lágrimas ameaçam cair, mas elas dão um tapinha na mão uma da outra como quem diz "chorar não pode!".
Enquanto o trem corre em direção ao futuro das duas senhoras, aquele vagão corre contra o tempo e volta para um passado onde elas duas podem ser amigas novamente.
Um tempo onde iam para casa uma da outra, fechavam-se no quarto e passavam horas intermináveis conversando sobre festas, namorados, cabelo, amigos, medos, idéias, sonhos.
Desabafavam sobre perdas, sobre o mundo que as envolvia, sobre corações partidos, sobre sonhos, expectativas, desejos.
Num tempo onde não havia uma familia formada, não haviam casas que elas mesmas tinham contruido, cada uma em uma cidade diferente.
Não haviam dois maridos, filhos, nem uma mãe doente e dois pais falecidos.
Não havia um divórcio, não havia sofrimento, não havia um filho que foi morar no Japão, nem uma filha que virou budista.
Não havia distância física e muito menos espiritual.
O vagão inteiro ganhou o cheiro desse tempo, onde as tarde tinham cheiro do bolo que a mãe preparava para as duas e as manhãs tinham o cheiro do orvalho.
Antes do trem chegar na estação, elas não estavam mais naquela cabine. Tinham sido transportadas para uma outra época, onde aquela amizade podia ser recuperada.
Ali só restavam fotos de família, um óculos e um leve aroma de terra molhada. As gotas da chuva desenhando os trilhos do trem na janela de vidro.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Sintonizados
Ele adentra a sala, límpido.
Fala, observa. Os olhos atentos. As palavras precisas (às vezes nem tanto).
Circula o ambiente.
Ela já estava lá dentro quando ele entrou.
Também observa muito. Fala menos. As palavras menos precisas. Quase perdidas.
Ele fica atento e ouve ela falar. As palavras vão se perdendo, mas ele consegue recuperá-las.
Ela, muito agitada, quer falar de tudo de repente, quer pensar em tudo, quer fazer tudo e viver de tudo.
Ele acompanha os loopings daquela conversa sem sentido. Riem. Não sei se sabem de que, mas se entendem.
Ela derrama sobre ele algumas lágrimas e ele se comove. Não sabe mais se ela está feliz ou não. Tenta animá-la fazendo graça, e ela retriubui sorrindo.
Ele quer mais e sobe na cadeira. Faz um discuro, planta bananeira. Ela bate palmas e se diverte com o espetáculo.
Animado, ele sobe as escadas, corre e faz um circo para ela, que vibra.
Em meio a rodopios, escorrega e cai. Batendo com força no chão. Os dois param: a respiração dele e o coração dela.
A magia do memento se desfaz, como uma música parada no meio de um acorde.
Ela deita ao lado dele, fecha os olhos e lembra de Sheakspeare.
Deixa mais lágrimas rolarem. Ele abre os olhos, mas não revela o segredo. Continua silencioso sentindo um pouco do calor daquele sofrimento.
Depois sente pena dela e entrega o mistério, sorrindo com os olhos.
Ela fala um monte de palavras pouco precisas e ele vai recolhendo carinhosamente e arrumando-as.
Deitam-se lado a lado, fecham os olhos e escutam o pensamento um do outro. Atentos um ao outro. Cada vez menos precisos, cada vez mais conectados.
Fala, observa. Os olhos atentos. As palavras precisas (às vezes nem tanto).
Circula o ambiente.
Ela já estava lá dentro quando ele entrou.
Também observa muito. Fala menos. As palavras menos precisas. Quase perdidas.
Ele fica atento e ouve ela falar. As palavras vão se perdendo, mas ele consegue recuperá-las.
Ela, muito agitada, quer falar de tudo de repente, quer pensar em tudo, quer fazer tudo e viver de tudo.
Ele acompanha os loopings daquela conversa sem sentido. Riem. Não sei se sabem de que, mas se entendem.
Ela derrama sobre ele algumas lágrimas e ele se comove. Não sabe mais se ela está feliz ou não. Tenta animá-la fazendo graça, e ela retriubui sorrindo.
Ele quer mais e sobe na cadeira. Faz um discuro, planta bananeira. Ela bate palmas e se diverte com o espetáculo.
Animado, ele sobe as escadas, corre e faz um circo para ela, que vibra.
Em meio a rodopios, escorrega e cai. Batendo com força no chão. Os dois param: a respiração dele e o coração dela.
A magia do memento se desfaz, como uma música parada no meio de um acorde.
Ela deita ao lado dele, fecha os olhos e lembra de Sheakspeare.
Deixa mais lágrimas rolarem. Ele abre os olhos, mas não revela o segredo. Continua silencioso sentindo um pouco do calor daquele sofrimento.
Depois sente pena dela e entrega o mistério, sorrindo com os olhos.
Ela fala um monte de palavras pouco precisas e ele vai recolhendo carinhosamente e arrumando-as.
Deitam-se lado a lado, fecham os olhos e escutam o pensamento um do outro. Atentos um ao outro. Cada vez menos precisos, cada vez mais conectados.
domingo, 26 de setembro de 2010
Pormenores
Talvez nenhum dos dois tivesse um objetivo. Em comum, não o tinham, mas talvez nem propositos opostos.
Caminhavam.
O relógico carregava todo o peso dos seus ponteiros para arrastar os minutos, enquanto o tempo do lado de fora corria com suas pernas compridas e ágeis.
No longo intervalo entre um número e outro de minuto que passava, uma corrente de acontecimentos se preparava para acontecer. Um efeito dominó.
Cruzaram-se.
Nesse momento uma nuvem de pássaros sobrevoa as suas cabeças, cobrindo o sol e fazendo uma enorme sombra. Atordoados, juntos aos milhares de pedestres,
olham para o céu procurando pela luz. Veem que o dia virou noite. Os dois olham seus relógios e percebem os ponteiros parados.
Ela deve ter uns 20 anos. Entra em uma cafeteria para esperar o eclipse passar. Não avisaram nada na metereologia.
Ele entra na cafeteria logo em seguida. Pede um café e vai se sentar próximo à porta. Sentam-se ao lado um do outro, por acaso.
Ela pede um café. Pegam as xícaras juntos, bebem juntos, colocam as xícaras no balcão. Suspiram juntos. Esperam a passagem do eclipse juntos.
Ainda não se viram e nem trocaram nenhuma palavra. Será que vão conseguir perceber o fio que unia um ao outro naquele momento?
Um fio tão invisível como o de uma teia de aranha.
Pediram a conta juntos, sem notar. Pagaram ao mesmo tempo, cada um para um balconista.
Levantou-se ela. Levantou-se ele. Andaram até a porta. O eclipse já estava passando.
Olharam ao mesmo tempo para os seus relógios, ainda parados.
Quando o primeiro raio de luz do sol consegui ultrapassar a penumbra, pode-se ver o bater das asas do último pássaro que cruzara o céu e fizera do dia noite.
Ninguém percebeu que eram pássaros. Todas as pessoas acreditaram que era apenas um eclipse.
Ela viu o último bater de asas. Ele ouviu o último farfalhar das penas. Na hora de sair pela porta do café, esbarram-se e notaram-se pela primeira vez.
Ela se desculpou rapidamente, ele também e depois saíram. Cada um foi para um lado. Olharam seus relógios e os ponteiros tinham voltado a se arrastar.
Aqueles pássaros eram momentos. Eram segundos, minutos, horas, dias, anos, séculos congelados.
Eles eram o tempo. No momento em que a revoada de pássaros cruzou a cidade, o tempo congelou para que mais momentos únicos pudessem ficar registrados.
Muitos podem pensar que esse milagre que não costuma acontecer sempre foi um desperdicio para eles dois. Estavam lado a lado, mas não conseguiram agarrar aquele momento.
Mas de alguma maneira, o momento agarrou os dois. O fio da teia de aranha, quase inivisível e extremamente resistente já tinha feito o seu trabalho.
Eles não sabiam, mas estavam presos. Se encontrariam de novo e, talvez, o tempo parasse mais uma vez para eles.
Enquanto o tempo corre com suas pernas esguias muitos momentos nos dão a chance de se congelarem. Ficarem cristalizados na nossa memória.
Momentos, pessoas, sentimentos e pássaros que às vezes fazem nossos ponteiros parar.
Muitas vezes não nos damos conta do encatamento. Outras vezes podemos ver ou ouvir o último farfalhar das asas.
Caminhavam.
O relógico carregava todo o peso dos seus ponteiros para arrastar os minutos, enquanto o tempo do lado de fora corria com suas pernas compridas e ágeis.
No longo intervalo entre um número e outro de minuto que passava, uma corrente de acontecimentos se preparava para acontecer. Um efeito dominó.
Cruzaram-se.
Nesse momento uma nuvem de pássaros sobrevoa as suas cabeças, cobrindo o sol e fazendo uma enorme sombra. Atordoados, juntos aos milhares de pedestres,
olham para o céu procurando pela luz. Veem que o dia virou noite. Os dois olham seus relógios e percebem os ponteiros parados.
Ela deve ter uns 20 anos. Entra em uma cafeteria para esperar o eclipse passar. Não avisaram nada na metereologia.
Ele entra na cafeteria logo em seguida. Pede um café e vai se sentar próximo à porta. Sentam-se ao lado um do outro, por acaso.
Ela pede um café. Pegam as xícaras juntos, bebem juntos, colocam as xícaras no balcão. Suspiram juntos. Esperam a passagem do eclipse juntos.
Ainda não se viram e nem trocaram nenhuma palavra. Será que vão conseguir perceber o fio que unia um ao outro naquele momento?
Um fio tão invisível como o de uma teia de aranha.
Pediram a conta juntos, sem notar. Pagaram ao mesmo tempo, cada um para um balconista.
Levantou-se ela. Levantou-se ele. Andaram até a porta. O eclipse já estava passando.
Olharam ao mesmo tempo para os seus relógios, ainda parados.
Quando o primeiro raio de luz do sol consegui ultrapassar a penumbra, pode-se ver o bater das asas do último pássaro que cruzara o céu e fizera do dia noite.
Ninguém percebeu que eram pássaros. Todas as pessoas acreditaram que era apenas um eclipse.
Ela viu o último bater de asas. Ele ouviu o último farfalhar das penas. Na hora de sair pela porta do café, esbarram-se e notaram-se pela primeira vez.
Ela se desculpou rapidamente, ele também e depois saíram. Cada um foi para um lado. Olharam seus relógios e os ponteiros tinham voltado a se arrastar.
Aqueles pássaros eram momentos. Eram segundos, minutos, horas, dias, anos, séculos congelados.
Eles eram o tempo. No momento em que a revoada de pássaros cruzou a cidade, o tempo congelou para que mais momentos únicos pudessem ficar registrados.
Muitos podem pensar que esse milagre que não costuma acontecer sempre foi um desperdicio para eles dois. Estavam lado a lado, mas não conseguiram agarrar aquele momento.
Mas de alguma maneira, o momento agarrou os dois. O fio da teia de aranha, quase inivisível e extremamente resistente já tinha feito o seu trabalho.
Eles não sabiam, mas estavam presos. Se encontrariam de novo e, talvez, o tempo parasse mais uma vez para eles.
Enquanto o tempo corre com suas pernas esguias muitos momentos nos dão a chance de se congelarem. Ficarem cristalizados na nossa memória.
Momentos, pessoas, sentimentos e pássaros que às vezes fazem nossos ponteiros parar.
Muitas vezes não nos damos conta do encatamento. Outras vezes podemos ver ou ouvir o último farfalhar das asas.
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