Saiu de casa, bateu a porta e pegou a bicicleta encostada na grade da varanda.
Desceu as escadas e começou a pedalar pela rua.
Começou a pensar nas besteiras que tinha acabado de ouvir da sua mãe e sentiu a raiva subindo pelas paredes do seu corpo.
Sentiu sua pele esquentar e a amargura daqueles momentos arranhando a garganta.
Como podiam ser tão diferentes? Como a barriga que a guardou durante nove meses, os seios que a amamentaram, o colo que a ninou podiam trazer-lhe agora tanta repulsa?
Os olhos se encheram d'água e ver a avenida pela qual andava tornara-se mais difícil. Apertou então os olhos pra que as lágrimas saíssem do seu campo de visão.
Quando entrou na casa da mãe para poderem discutir sobre a decisão que havia tomado já sabia que seria difícil fazê-la entender porque estava agindo daquela maneira.
Sabia, desde o principío, que o momento em que fosse forçada a dar satisfações a sua mãe as coisas entre elas desandariam mais uma vez.
Aquela estabilidade na relação, tão dificil de ser alcançada, e tão impecavelmente mantida em manutenção durante esses anos seria abalada.
E provavelmente, dessa vez, não haveria forma de contornar a situação e reverter esse ciclo de discussões, ofensas, sofrimento e luto.
Tinha dito a si mesma que seria a última vez que daria satisfação a sua mãe sobre a sua vida.
O que ela não sabia era que esse não era o seu real desejo, mas foi exatamente assim que aconteceu e isso a encheu de remorso pelo resto da vida.
Quando José entrou na sua vida, muitas coisas mudaram. Na verdade, tudo mudou.
O que ela esperou da mãe não foi nada mais do que qualquer filha poderia esperar: O apoio, a amizade, as palavras de consolo, ou, minimamente, a compreensão que nunca veio.
Sua vida virou de pernas pro ar seguindo a cadeia de desgraças que foram caindo sobre a sua cabeça:
conhecer Manuel, se apaixonar por ele, descobrir toda a maldade que poderia haver dentro de um homem,
terminar um relacionamento conturbado, ser ameaçada de morte, ser espancada, ser estuprada por esse ex amor da sua vida.
Sua mãe nunca deixou de culpá-la por ter sido tão ingênua e leviana.
E durante muito tempo acreditou que a culpa do estrago irreparável que haviam causado na sua vida era unicamente dela.
Longos períodos se estenderam sobre ela e a sua única confidente era a culpa, que não a abandonava nem durante as noites, pra que pudesse descansar um pouco.
Muito pelo contrário, era exatamente nesses momentos em que a culpa entrava pelas brechas das portas e janelas, como um gás venenoso,
penetrava pelas suas narinas e intoxicava o mais íntimo de sua alma.
Sentia todo o peso da culpa comprimir seu corpo e esmagar seus ossos enquanto chorava, sozinha, pedindo perdão a Deus por algo que nem ela sabia como tinha feito.
Quando descobriu que estava grávida as coisas declinaram sensivelmente.
Tinha perdido o contato com todos os seus amigos enquanto namorava Manoel, pois ele a proibia de encontar com eles,
alegando que eram pessoas perdidas e interesseiras. O ciúme descabido de Manoel e o amor irremediável que ela o dedicava fizeram com que seu universo se restringisse aos dois.
Afastou-se até de sua família, já que Manoel sentia que não tinha a aprovação dentro da casa dos pais dela.
A gravidez veio como um soco na boca do estômago. Sentiu realmente que a sua barriga afundava infinitamente,
como se todo o seu corpo pudesse se voltar pra dentro dela e ela fosse potecialmente engolida por esse monstro que agora habitava seu ventre.
Percebia seu corpo apodrecido, já que a semente de Manoel florescia dentro dela.
Recorreu a um amigo de infância quando sentiu que suas forças se haviam esvaído por completo devido a todo o desgate emocional.
Precisava de algum apoio, uma bengala que a mentivesse erguida, ainda que escorada, pra enfrentar essa onda de concreto que lhe tirava toda a vida que ainda residia no seu corpo.
Seu amigo apresentou-lhe a namorada que conhecia um chá que garantia a secura das sementes idenvidamente plantadas.
A mulher explicou que ela deveria ferver 3 folhas da erva. Nem uma a mais, nem uma a menos. Em dois dias tudo estaria terminado.
Nesse dia, quando chegou em casa, sentou-se no chão de madeira corrida, iluminada por um raio de sol que invadia a sala por uma fresta.
Pegou uma xícara de porcelana, o bule fumegante e colocou, delicadamente, três folhas da erva dentro da xícara.
Contemplou as folhas secas durante alguns minutos e, num movimento tão lento, quase que em câmera lenta, retirou uma das folhas.
Despejou a água fervendo sobre as duas plantas que restavam e ficou observando a fumaça subindo concreta, branca, contra a luz que entrava, e depois se desfazendo facilmente.
Desmanchando-se sem deixar nenhum vestígio de existência. Pensou em toda a sua preocupação e desejou que tudo se transformasse naquela fumaça.
Como no ritual de um feitiço, proferiu seu desejo em voz alta para o chá. Depois bebeu o líquido marrom. Deus uns dois goles e cuspiu o resto.
O gosto de merda impregnou seu paladar, olfato. Parecia estender-se até o cérebro. Sentiu uma dor de cabeça absurda e apagou.
Acordou no dia seguinte com o raio de sol bem mais forte. Notou que havia passado a noite inteira caída na sala.
Depois percebeu que havia feito suas necessidades enquanto dormia. Arrancou a roupa e correu para o banheiro com a ânsia de vômito antecedendo a moléstia.
Tomou um banho, chorando descontroladamente. Tremendo. Sentia o medo presente em cada parte do seu corpo. Entrou em pânico.
Não sabia o que era aquela erva. Não fazia idéia do que aquilo seria capaz de causar ao seu corpo. Sentiu medo de morrer, ter um enfarte, um derrame, ficar retardada.
Não entendia como não tinha conseguido se segurar. Como seu corpo perdera a razão e se comportara como o de um bebê.
Ainda em pânico, ligou para o amigo, que veio às pressas com a namorada até sua casa.
A mulher a acalmou, dizendo que tudo aquilo era natural. Era o corpo dela expelindo tudo o que não prestava. Vômito, urina e fezes eram o que saíria primeiro e com maior facilidade.
Depois seria o feto que a deixaria, enfim.
Os dias se passaram. Os meses, os enjôos, os desejos e a barriga crescida acabaram entregando que os planos não funcionaram.
Quando foi ao médico, estava no 5º mês de gravidez, "graças a um milagre a criança estava bem!".
Parecia que o pesadelo se estendia numa linha de tempo agora indeterminada.
Na mesma hora sua memória entregou sua fraqueza. Três folhas. Nem uma a mais, nem uma a menos. Naquela tarde ela fez um chá usando duas folhas.
Não sei dizer se foi medo ou se alguma coisa dentro dela lutava contra aquilo.
O médico terminou de destrui-la quando confessou que alguma coisa parecia um pouco estranha com o seu bebê.
"Parece que a criança sofrerá de uma deficiência mental".
Não sei se sou capaz de narrar com riqueza de detalhes o decorrer dos fatos a partir dessa consulta.
E nem mesmo ela era capaz de se lembrar de tudo agora, pedalando e relembrando esses acontecimentos.
Sentia agora, sob o céu arroxeado, algumas gotas de chuva começando a cair.
Quanto mais rápido pedalava, mais forte sentia as gostas batendo contra o seu rosto.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
[ ]
Quando se olharam pela última vez nos olhos alguma coisa dentro dela disse que para que um novo encontro acontecesse isso levaria tempo.
Sentiu uma certeza, que quis duvidar, de que aquela conversa, como muitas outras que tiveram, descontraída e descompromissada, era uma despedida e
na hora de ir embora beijou-o. Colou seus lábios nos dele durante longos segundos e o beijo foi dolorido. Ela sabia que seria o último.
Saiu do carro e ficou repassando tudo o que haviam conversado. Tudo o que ele havia lhe dito. Repassou cada palavra, cada olhar, cada toque e intonação.
Fazia isso numa tentativa desesperada de registrar tudo o que tinha acabado de acontecer. Uma maneira de guardar tudo na memória exatamente como ocorreu.
Infelizmente sua memória já a traía e as lembranças se confundiam.
Sabia que estava pisando num terreno delicado. Abrir-se pra alguém não é um ato simples e muito menos simplório.
Com ele o caso não foi simplesmente de abrir-se. Desarmou-se por completo diante dele. Despiu-se de defesas.
Foi intensa, porém, leviana. Ainda não sei se foi um ato corajoso ou irresponsável. Mas estava, de fato, entregue.
Bocas ansiosas repetem como num mantra que a entrega e a crença são virtudes admiráveis,
mas sua mente desnorteada não pode considerar essas qualidades vantajosas para si.
Quando conversava com ele olhava-o dentro dos olhos como quem olha dentro da alma de alguém.
Absorvia-o numa doce rendição e esquecia filtros, armaduras ou suportes.
Aquilo parecia bastar. Sentia-se junto dele.
Toda aquela transmissão sustentava por trás dos olhos e na ponta da língua um pedido tolo e tímido: "Apenas não minta pra mim."
Se ele realizasse esse único desejo sentia que nada mais teria tanta importância. Qualquer coisa seria contornável.
Nunca deixou que seu pedido saísse de sua boca, mas pensava que ele compreenderia sua necessidade de ser sincera e de ouvir sinceridades.
Olhava-o e as palavras flutuavam na sua cabeça, passando pelos seus olhos como um letreiro: "Apenas não minta pra mim."
Era absolutamente verdadeira e seu pecado foi esperar que o que vinha dela viria do outro lado como numa via de mão-dupla.
Provavelmente foi aí que sua entrega deixou de ser corajosa e passou a ser uma negligência de si.
Pois amar sempre foi um ato que não requer absolutamente nada. É belo por si só. Mesmo só, é belo. É belo e só.
Mas abandonar-se frente a um amor não é uma atitude inteligente. A beleza esfria, ganhando contornos mais rigidos e coloração mais sóbria.
Deixou que o tempo fosse lhe passando a perna dia após dia, numa espera eterna.
Acreditando no que sua memória cruel lhe cedia: Vagas lembranças de raros momentos.
Acima de toda e qualquer recordação o que mantinha viva a vontade de arrastar os dias na esperança de que seu barco encontrasse terra firma era a vontade de querer bem.
O desejo de estar por perto. Era o carinho, a confiança dedicada. Era fechar os olhos e pular, sabendo que uma mão a seguraria.
Era sorrir por dentro ao saber dele, mesmo que não fosse por ele.
Era catar a concha mais bonita da praia para dar de presente, quando na verdade gostaria de dar um sorriso.
Era poder, apenas, dar as mãos.
O que aconteceu foi o despedaçar da flor. Foi o salto não sucedido da mão para poupar a queda.
Foi saber dele sempre de longe. Foi dar o sorriso e ouvir o silêncio.
Será que se tivesse feito seu pedido em voz alta alguma coisa teria mudado?
Será que o golpe teria sido ao menos mais gentil?
Deixou as lágrimas rolarem pelos olhos. Uma seguida da outra levando cada uma um pedacinho de sofrimento. Foram brotando e despencando do precipício.
No final sentiu-se vazia por dentro. Seca. Sentiu o nó na garganta e forçou o choro pra ver se havia ainda alguma coisa. Nada.
Então percebeu que faltava um pouco de delicadeza em todo esse ritual de tristeza e, por fim, amou-se.
Colocou uma música, deitou-se no chão fresco e ficou sentindo as batidas do seu próprio coração. Sentindo seu ventre subir e descer num movimento livre.
Foi sentindo-se cada vez mais fiel a ela mesma.
Entendendo a importância do momento fechou os olhos e ficou só consigo e ficou feliz por ter se achado num momento em que quase se perdeu.
Sentiu uma certeza, que quis duvidar, de que aquela conversa, como muitas outras que tiveram, descontraída e descompromissada, era uma despedida e
na hora de ir embora beijou-o. Colou seus lábios nos dele durante longos segundos e o beijo foi dolorido. Ela sabia que seria o último.
Saiu do carro e ficou repassando tudo o que haviam conversado. Tudo o que ele havia lhe dito. Repassou cada palavra, cada olhar, cada toque e intonação.
Fazia isso numa tentativa desesperada de registrar tudo o que tinha acabado de acontecer. Uma maneira de guardar tudo na memória exatamente como ocorreu.
Infelizmente sua memória já a traía e as lembranças se confundiam.
Sabia que estava pisando num terreno delicado. Abrir-se pra alguém não é um ato simples e muito menos simplório.
Com ele o caso não foi simplesmente de abrir-se. Desarmou-se por completo diante dele. Despiu-se de defesas.
Foi intensa, porém, leviana. Ainda não sei se foi um ato corajoso ou irresponsável. Mas estava, de fato, entregue.
Bocas ansiosas repetem como num mantra que a entrega e a crença são virtudes admiráveis,
mas sua mente desnorteada não pode considerar essas qualidades vantajosas para si.
Quando conversava com ele olhava-o dentro dos olhos como quem olha dentro da alma de alguém.
Absorvia-o numa doce rendição e esquecia filtros, armaduras ou suportes.
Aquilo parecia bastar. Sentia-se junto dele.
Toda aquela transmissão sustentava por trás dos olhos e na ponta da língua um pedido tolo e tímido: "Apenas não minta pra mim."
Se ele realizasse esse único desejo sentia que nada mais teria tanta importância. Qualquer coisa seria contornável.
Nunca deixou que seu pedido saísse de sua boca, mas pensava que ele compreenderia sua necessidade de ser sincera e de ouvir sinceridades.
Olhava-o e as palavras flutuavam na sua cabeça, passando pelos seus olhos como um letreiro: "Apenas não minta pra mim."
Era absolutamente verdadeira e seu pecado foi esperar que o que vinha dela viria do outro lado como numa via de mão-dupla.
Provavelmente foi aí que sua entrega deixou de ser corajosa e passou a ser uma negligência de si.
Pois amar sempre foi um ato que não requer absolutamente nada. É belo por si só. Mesmo só, é belo. É belo e só.
Mas abandonar-se frente a um amor não é uma atitude inteligente. A beleza esfria, ganhando contornos mais rigidos e coloração mais sóbria.
Deixou que o tempo fosse lhe passando a perna dia após dia, numa espera eterna.
Acreditando no que sua memória cruel lhe cedia: Vagas lembranças de raros momentos.
Acima de toda e qualquer recordação o que mantinha viva a vontade de arrastar os dias na esperança de que seu barco encontrasse terra firma era a vontade de querer bem.
O desejo de estar por perto. Era o carinho, a confiança dedicada. Era fechar os olhos e pular, sabendo que uma mão a seguraria.
Era sorrir por dentro ao saber dele, mesmo que não fosse por ele.
Era catar a concha mais bonita da praia para dar de presente, quando na verdade gostaria de dar um sorriso.
Era poder, apenas, dar as mãos.
O que aconteceu foi o despedaçar da flor. Foi o salto não sucedido da mão para poupar a queda.
Foi saber dele sempre de longe. Foi dar o sorriso e ouvir o silêncio.
Será que se tivesse feito seu pedido em voz alta alguma coisa teria mudado?
Será que o golpe teria sido ao menos mais gentil?
Deixou as lágrimas rolarem pelos olhos. Uma seguida da outra levando cada uma um pedacinho de sofrimento. Foram brotando e despencando do precipício.
No final sentiu-se vazia por dentro. Seca. Sentiu o nó na garganta e forçou o choro pra ver se havia ainda alguma coisa. Nada.
Então percebeu que faltava um pouco de delicadeza em todo esse ritual de tristeza e, por fim, amou-se.
Colocou uma música, deitou-se no chão fresco e ficou sentindo as batidas do seu próprio coração. Sentindo seu ventre subir e descer num movimento livre.
Foi sentindo-se cada vez mais fiel a ela mesma.
Entendendo a importância do momento fechou os olhos e ficou só consigo e ficou feliz por ter se achado num momento em que quase se perdeu.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Instinto
A lombriga rasteja sua carcaça robusta.
Todos sentem ojeriza quando o verme se arrasta,
mas a menina gosta do jeito que ele se encolhe e depois espreguiça.
Sente, então, como um verme e brinca de rastejar no chão.
Perto do solo o vai-e-vem da lombriga hipnotiza a menina
que se faz comprida esticando os dedinhos
e logo em seguida esconde o rosto, as mãos e o joelho como uma ostra.
Quer tocar a lombriga.
Quer chegar mais perto e segurá-la.
Quer, num ato de autoridade, esmagá-la entre as mãozinhas
e ordenar que seja menos lânguida, menos escorregadia, menos maleável e menos interessante.
Quer, em verdade, trocar de corpo com aquele ser incrível.
Quer tornar-se um verme.
Por inteligência ou instinto come a lombriga.
A menina rasteja sua carcaça robusta.
Todas as crianças gostam do jeito que ela se encolhe e depois espreguiça.
Todos sentem ojeriza quando o verme se arrasta,
mas a menina gosta do jeito que ele se encolhe e depois espreguiça.
Sente, então, como um verme e brinca de rastejar no chão.
Perto do solo o vai-e-vem da lombriga hipnotiza a menina
que se faz comprida esticando os dedinhos
e logo em seguida esconde o rosto, as mãos e o joelho como uma ostra.
Quer tocar a lombriga.
Quer chegar mais perto e segurá-la.
Quer, num ato de autoridade, esmagá-la entre as mãozinhas
e ordenar que seja menos lânguida, menos escorregadia, menos maleável e menos interessante.
Quer, em verdade, trocar de corpo com aquele ser incrível.
Quer tornar-se um verme.
Por inteligência ou instinto come a lombriga.
A menina rasteja sua carcaça robusta.
Todas as crianças gostam do jeito que ela se encolhe e depois espreguiça.
domingo, 19 de dezembro de 2010
Um dia de aula
Encontro algumas nuvens dentro do meu café e começo a mordiscá-las entre um gole e outro.
Terminei a xícara e limpei o bigode de leite com uns pedaços de algodão que restavam no fundo.
Peguei o onibus e sentei sozinha, logo atrás do motorista.
Gosto de sentar na janela para o vento bater bem forte no meu rosto e para que eu possa sentir os meus cabelos voando desordenadamente.
Na segunda parada da viagem vejo, pelo canto dos olhos, um senhor sentar ao meu lado.
Era um senhor com uns fios de cabelo tão finos que pareciam uma delicada penugem de neve.
Ele era tão frágil e curvado que qualquer sopro parecia ser capaz de parti-lo em pedacinhos miudos ou levá-lo embora.
Fechei rapidamente a janela para que o vento não o incomodasse. Ele tossiu debilmente e depois sorriu.
- Você está com frio? Esse calor terrível a você vai ter coragem de me deixar sem uma brisa como refresco?
Hesitei um pouco e perguntei se o vento não estava muito forte para ele.
Ele fez que não com a cabeça. Abri novamente a janela, um pouco menos dessa vez.
Ele, como um bom cavalheiro, se apresentou para mim, falando num tom de voz tão baixo que, mesmo sentada ao seu lado, tive que me aproximar para escutá-lo.
- Me chamo Leonardo.
Contou-me que na semana seguinte completaria 90 anos. Estava na flor-da-idade.
Estava indo para antiga fábrica de sardinhas, onde poderia dar uma caminhada. Um dos prazeres que cultivava.
Na semana seguinte iria para Maricá, para o seu sítio. Ia sozinho.
- Meus filhos não me procuram não. Mas eu posso culpá-los? Eles tem as famílias deles. E eu vou comigo. Que é a melhor companhia que eu tenho.
Me falou das noites no sítio em que anda por uma estrada onde a única luz é a da lua.
Vai andando devargarzinho, ouvindo os barulinhos que vem da mata e sentindo seus músculos desgastados trabalhando, seus ossos cansados firmando seu corpo e seu coração antigo pulsando.
Pergunto se ele não tem medo de andar sozinho. Mas ele me garante que não há nada como estar consigo mesmo. Acredito plenamente.
Tiro os óculos escuros e sinto um contato maior.
- Que olhos bonitos! Você tem olhos de gato. Ou de peixes.
- Peixes?
- É. Peixes. Água. Mar.
Me conta de uma menina que ele namorou na juventude. Ela tinha os olhos de peixes, iguais aos meus. Foi o primeiro amor da vida dele.
Depois me contou de outros amores. De desamores. Contou das mulheres que cruzaram com ele. Mulheres direitas e mulheres da vida. Cada uma com uma história, um destino.
Contou da mulher com quem dividiu sua escova de dente e o resto de sua vida.
Dos filhos que tiveram juntos, da felicidade que ela lhe deu e do vazio que deixou quando se foi.
- Engraçado. Ela também tinha os olhos de peixes.
Sorri.
Ergueu os braços frágeis e apontou com os dedos de gravetos para a lua que era possivel de se ver, mesmo durante o dia.
- Sabe essa coisa bonita que ilumina as noites e as nossas idéias?
Fiz que sim.
- Ela ilumina também o nosso coração, sabia?
Declarou, por fim, que o que importava na vida ele já tinha.
- Não tô dizendo que não quero mais nada e que já podem me levar, não!
Deixou claro.
- Quero ir pro meu sítio, fazer longas caminhadas durante a noite e durante o dia. Quero encontrar uma mulher que queira dividir comigo os finais dos dias.
E isso não é pouco. Eu tive uma mulher que dividiu comigo todas as luas, crepúsculos, nasceres do sol e sol a pino.
Essa mulher dividiu comigo a vida dela e eu dei pra ela a minha. Meu coração ela levou.
Mas ainda tem um corpo aqui que precisa ver alguns pôr-do-sol e esse corpo precisa de companhia.
Me contou ainda que tem muitos planos, mesmo sem saber se será possível realizá-los.
- Não importa tanto se eu vou conseguir fazer tudo. Mas se eu quero então eu já comecei a conquistar.
Me aconselhou a continuar sorrindo porque assim eu conquistaria mundos inimagináveis. Me aconselhou a caminhar sempre porque faz bem pro corpo e pra mente.
Me aconselhou a me apaixonar muito e muitas vezes. Por vários ou pela mesma pessoa. Me aconselhou a ouvir os barulhos da mata e do meu corpo porque esses são os mais sábios e reveladores.
Me aconselhou a me cuidar, me proteger, não dá bola pra qualquer um porque tem muita gente má por aí.
Me aconselhou a manter os olhos de peixes sempre brilhantes e cheios de mar.
Me aconselhou a admirar a lua porque ela deixará minhas noites mais poéticas e meus dias mais bonitos.
Me aconselhou a andar sempre na minha própria companhia porque essa seria a pessoa mais sincera e companheira que eu poderia achar.
Por fim, me aconselhou a visitá-lo, porque ele já ia descer do ônibus, mas que achava muito aconselhavel termos outra conversa,
porque há muitas coisas ainda para serem aconselhadas, mesmo que eu não siga metade delas.
- Eu moro na rua do lado da igrejinha de São Sebastião. Minha casa é a de número 3. Passa lá. A gente pode conversar mais.
Desceu do ônibus e eu, infatilmente, corri para a janela para acenar.
Vi aquele homem com mãos de graveto gesticulando o número 3, de sua casa. Ficanda cada vez menor e mais frágil.
Senti um aperto no peito de tanta ternura.
Ainda tenho muito o que aprender e tenho um professor disposto a me ensinar.
Terminei a xícara e limpei o bigode de leite com uns pedaços de algodão que restavam no fundo.
Peguei o onibus e sentei sozinha, logo atrás do motorista.
Gosto de sentar na janela para o vento bater bem forte no meu rosto e para que eu possa sentir os meus cabelos voando desordenadamente.
Na segunda parada da viagem vejo, pelo canto dos olhos, um senhor sentar ao meu lado.
Era um senhor com uns fios de cabelo tão finos que pareciam uma delicada penugem de neve.
Ele era tão frágil e curvado que qualquer sopro parecia ser capaz de parti-lo em pedacinhos miudos ou levá-lo embora.
Fechei rapidamente a janela para que o vento não o incomodasse. Ele tossiu debilmente e depois sorriu.
- Você está com frio? Esse calor terrível a você vai ter coragem de me deixar sem uma brisa como refresco?
Hesitei um pouco e perguntei se o vento não estava muito forte para ele.
Ele fez que não com a cabeça. Abri novamente a janela, um pouco menos dessa vez.
Ele, como um bom cavalheiro, se apresentou para mim, falando num tom de voz tão baixo que, mesmo sentada ao seu lado, tive que me aproximar para escutá-lo.
- Me chamo Leonardo.
Contou-me que na semana seguinte completaria 90 anos. Estava na flor-da-idade.
Estava indo para antiga fábrica de sardinhas, onde poderia dar uma caminhada. Um dos prazeres que cultivava.
Na semana seguinte iria para Maricá, para o seu sítio. Ia sozinho.
- Meus filhos não me procuram não. Mas eu posso culpá-los? Eles tem as famílias deles. E eu vou comigo. Que é a melhor companhia que eu tenho.
Me falou das noites no sítio em que anda por uma estrada onde a única luz é a da lua.
Vai andando devargarzinho, ouvindo os barulinhos que vem da mata e sentindo seus músculos desgastados trabalhando, seus ossos cansados firmando seu corpo e seu coração antigo pulsando.
Pergunto se ele não tem medo de andar sozinho. Mas ele me garante que não há nada como estar consigo mesmo. Acredito plenamente.
Tiro os óculos escuros e sinto um contato maior.
- Que olhos bonitos! Você tem olhos de gato. Ou de peixes.
- Peixes?
- É. Peixes. Água. Mar.
Me conta de uma menina que ele namorou na juventude. Ela tinha os olhos de peixes, iguais aos meus. Foi o primeiro amor da vida dele.
Depois me contou de outros amores. De desamores. Contou das mulheres que cruzaram com ele. Mulheres direitas e mulheres da vida. Cada uma com uma história, um destino.
Contou da mulher com quem dividiu sua escova de dente e o resto de sua vida.
Dos filhos que tiveram juntos, da felicidade que ela lhe deu e do vazio que deixou quando se foi.
- Engraçado. Ela também tinha os olhos de peixes.
Sorri.
Ergueu os braços frágeis e apontou com os dedos de gravetos para a lua que era possivel de se ver, mesmo durante o dia.
- Sabe essa coisa bonita que ilumina as noites e as nossas idéias?
Fiz que sim.
- Ela ilumina também o nosso coração, sabia?
Declarou, por fim, que o que importava na vida ele já tinha.
- Não tô dizendo que não quero mais nada e que já podem me levar, não!
Deixou claro.
- Quero ir pro meu sítio, fazer longas caminhadas durante a noite e durante o dia. Quero encontrar uma mulher que queira dividir comigo os finais dos dias.
E isso não é pouco. Eu tive uma mulher que dividiu comigo todas as luas, crepúsculos, nasceres do sol e sol a pino.
Essa mulher dividiu comigo a vida dela e eu dei pra ela a minha. Meu coração ela levou.
Mas ainda tem um corpo aqui que precisa ver alguns pôr-do-sol e esse corpo precisa de companhia.
Me contou ainda que tem muitos planos, mesmo sem saber se será possível realizá-los.
- Não importa tanto se eu vou conseguir fazer tudo. Mas se eu quero então eu já comecei a conquistar.
Me aconselhou a continuar sorrindo porque assim eu conquistaria mundos inimagináveis. Me aconselhou a caminhar sempre porque faz bem pro corpo e pra mente.
Me aconselhou a me apaixonar muito e muitas vezes. Por vários ou pela mesma pessoa. Me aconselhou a ouvir os barulhos da mata e do meu corpo porque esses são os mais sábios e reveladores.
Me aconselhou a me cuidar, me proteger, não dá bola pra qualquer um porque tem muita gente má por aí.
Me aconselhou a manter os olhos de peixes sempre brilhantes e cheios de mar.
Me aconselhou a admirar a lua porque ela deixará minhas noites mais poéticas e meus dias mais bonitos.
Me aconselhou a andar sempre na minha própria companhia porque essa seria a pessoa mais sincera e companheira que eu poderia achar.
Por fim, me aconselhou a visitá-lo, porque ele já ia descer do ônibus, mas que achava muito aconselhavel termos outra conversa,
porque há muitas coisas ainda para serem aconselhadas, mesmo que eu não siga metade delas.
- Eu moro na rua do lado da igrejinha de São Sebastião. Minha casa é a de número 3. Passa lá. A gente pode conversar mais.
Desceu do ônibus e eu, infatilmente, corri para a janela para acenar.
Vi aquele homem com mãos de graveto gesticulando o número 3, de sua casa. Ficanda cada vez menor e mais frágil.
Senti um aperto no peito de tanta ternura.
Ainda tenho muito o que aprender e tenho um professor disposto a me ensinar.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Floresta
A névoa densa deixava o bosque branco. Tudo era muito fresco. A copa do carvalho, muito frondoso, misturava-se às outras árvores.
A luz entrava suavemente, sem agredir nenhum ser vivo. Sem interferir no fluxo do orvalho.
O acúmulo da garoa que caiu durante a noite fazia com que as folhas pendessem preguiçosamente.
O som silencioso dos seus cascos só podia ser ouvido pelos seres muito pequenos, pois o resto da floresta ainda dormia.
Desfilou por entre os antigos carvalhos, sentindo o ar gelado do início do dia passar por entre os fios da crina incrivelmente branca.
Postou-se ao lado da maior árvore do bosque. Diferente de todas as outras árvores, a ramada dessa entidade eram enormes flores e não folhagem.
A gigante vestia-se com pétalas de cores translúcidas que, ao serem penetradas pelos raios do sol, refletiam no chão um vitral.
O pelo claro do unicórnio refletia todas as cores. Achava-se numa calma ímpar, repousando sob a proteção da mãe da floresta.
O ar tinha um feitiço etéreo e claramente traços de um não-lugar. Uma não-superfície-terrestre.
Um espaço fora do espaço, com um céu recoberto de luas gigantes, tão próximas que ao esticar os braços a distância entre as pontas dos dedos e a superfície alva do astro se tornava mínima.
As cores desse terreno eram suaves.
Cada ser-vivo que brotava do chão tinha contornos difusos e reflexos harmoniosos, dando ainda mais a impressão de que se caminha em um tempo onírico.
Ouve-se, baixinho, a vida que habita em árvores milenares, pedras espaciais e solo fértil.
Milhares de vidas tecendo uma melodia de passos miúdos e bater de asas expressivo.
Uma joaninha escala a aste de um gerânio e oberva.
Uma libélula sobrevoa um jardim de violetas.
Uma lagartixa risonha move a cauda lentamente.
Uma formação de nuvens no alto de uma montanha cresce, ganhando dimensões extraordinárias.
O unicórnio repousa, uma joaninha orbserva, uma libélula lambe violetas, uma lagartixa sorri.
A floresta ganha aos poucos uma sombra magistral. Mansa.
A organização de cinzas no céu carrega vida e dissoluções.
As luas se viram de lado, retirando um pouco da sua beleza de prata para descanso.
Uma trovoada ressoa dentro do sonho e um dilúvio quimérico se joga do precipício.
Cristais vítreos despencam do céu e encharcam.
Todas as possibilidades se tornam paupáveis e tudo fica inebriado de acaso.
Os sentidos se aguçam e a tempestade realiza seu espetáculo.
Os seres não são espectadores ociosos. Participam.
Constroem a teia de divagações, ilusões, num terreno de não-lugar.
Onde os vitrais refletidos no chão são pétalas de flores, unicórnios flutuam entre carvalhos e uma joaninha observa.
Os satélites naturais são astros possíveis de se tocar. Tudo é muito fresco e a névoa densa deixa o bosque branco.
A luz entrava suavemente, sem agredir nenhum ser vivo. Sem interferir no fluxo do orvalho.
O acúmulo da garoa que caiu durante a noite fazia com que as folhas pendessem preguiçosamente.
O som silencioso dos seus cascos só podia ser ouvido pelos seres muito pequenos, pois o resto da floresta ainda dormia.
Desfilou por entre os antigos carvalhos, sentindo o ar gelado do início do dia passar por entre os fios da crina incrivelmente branca.
Postou-se ao lado da maior árvore do bosque. Diferente de todas as outras árvores, a ramada dessa entidade eram enormes flores e não folhagem.
A gigante vestia-se com pétalas de cores translúcidas que, ao serem penetradas pelos raios do sol, refletiam no chão um vitral.
O pelo claro do unicórnio refletia todas as cores. Achava-se numa calma ímpar, repousando sob a proteção da mãe da floresta.
O ar tinha um feitiço etéreo e claramente traços de um não-lugar. Uma não-superfície-terrestre.
Um espaço fora do espaço, com um céu recoberto de luas gigantes, tão próximas que ao esticar os braços a distância entre as pontas dos dedos e a superfície alva do astro se tornava mínima.
As cores desse terreno eram suaves.
Cada ser-vivo que brotava do chão tinha contornos difusos e reflexos harmoniosos, dando ainda mais a impressão de que se caminha em um tempo onírico.
Ouve-se, baixinho, a vida que habita em árvores milenares, pedras espaciais e solo fértil.
Milhares de vidas tecendo uma melodia de passos miúdos e bater de asas expressivo.
Uma joaninha escala a aste de um gerânio e oberva.
Uma libélula sobrevoa um jardim de violetas.
Uma lagartixa risonha move a cauda lentamente.
Uma formação de nuvens no alto de uma montanha cresce, ganhando dimensões extraordinárias.
O unicórnio repousa, uma joaninha orbserva, uma libélula lambe violetas, uma lagartixa sorri.
A floresta ganha aos poucos uma sombra magistral. Mansa.
A organização de cinzas no céu carrega vida e dissoluções.
As luas se viram de lado, retirando um pouco da sua beleza de prata para descanso.
Uma trovoada ressoa dentro do sonho e um dilúvio quimérico se joga do precipício.
Cristais vítreos despencam do céu e encharcam.
Todas as possibilidades se tornam paupáveis e tudo fica inebriado de acaso.
Os sentidos se aguçam e a tempestade realiza seu espetáculo.
Os seres não são espectadores ociosos. Participam.
Constroem a teia de divagações, ilusões, num terreno de não-lugar.
Onde os vitrais refletidos no chão são pétalas de flores, unicórnios flutuam entre carvalhos e uma joaninha observa.
Os satélites naturais são astros possíveis de se tocar. Tudo é muito fresco e a névoa densa deixa o bosque branco.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Poesia amarela
Olhei uma lista de cores amarelas
e pensei que eram todas diferentes entre elas.
Tanta tinta tosca que tava tudo trabalhoso.
As tintas amarelas eram, no final das contas,
todas amarelas, todas janelas.
Quando a gente quer fazer alguma arte
pensa em fazer pintura ou desenho.
Não sei porque a gente vê a arte
mais inteira nessa parte.
Talvez seja porque "ver" seja praxe.
E dentro dos quadros, pinturas e desenhos
a primeira coisa que se faz é olhar.
Sem se dar conta que a melhor parte da arte
tá em cada fragmento do ar.
Tá em ser o lugar, não importa onde, nem como.
A arte tá escondida um pouco debaixo das estantes
e dentro de potinhos pequenos.
Ela não se oculta porque quer,
mas o tal "olhar" (tão importante na hora de ver quadros pintados de amarelos variados)
fica abobado quando passa por estante e potinho.
Esquece de ver direito e a arte não fica evidente.
Aí o problema não é da arte ser menor,
é do olho ficar torto e olhar enviezado pro bonito que não se escancara.
Fica aquela coisa meio desbotada e grita-se: À ARTE! PERO, DONDÉ ESTÁS?
Quando a poesia começa a se escrever,
dentro ou fora do papel, a arte escondida fica em primeiro plano.
Porque a poesia é a arte inteirinha.
Mesmo que você não possa ver nem tocar.
Às vezes não dá nem pra ouvir.
Porque, às vezes, poesia não é escrita com papel e caneta.
Às vezes poesia não gosta de usar as palavras.
Se encontra no corpo da arte que paira no ar e cola.
Esse é um grande efeito da arte:
Ser grande ou pequenininha, mas se fazer inteira dentro e fora.
Porque a arte tá dentro e fora dos quadros, músicas, textos.
Ela gosta de ser desfeita e se recompor.
Porque a arte tá em poetizar.
Não precisa ser em prosa, nem em verso, nem em papel, nem com caneta.
Seja a poesia o que for.
e pensei que eram todas diferentes entre elas.
Tanta tinta tosca que tava tudo trabalhoso.
As tintas amarelas eram, no final das contas,
todas amarelas, todas janelas.
Quando a gente quer fazer alguma arte
pensa em fazer pintura ou desenho.
Não sei porque a gente vê a arte
mais inteira nessa parte.
Talvez seja porque "ver" seja praxe.
E dentro dos quadros, pinturas e desenhos
a primeira coisa que se faz é olhar.
Sem se dar conta que a melhor parte da arte
tá em cada fragmento do ar.
Tá em ser o lugar, não importa onde, nem como.
A arte tá escondida um pouco debaixo das estantes
e dentro de potinhos pequenos.
Ela não se oculta porque quer,
mas o tal "olhar" (tão importante na hora de ver quadros pintados de amarelos variados)
fica abobado quando passa por estante e potinho.
Esquece de ver direito e a arte não fica evidente.
Aí o problema não é da arte ser menor,
é do olho ficar torto e olhar enviezado pro bonito que não se escancara.
Fica aquela coisa meio desbotada e grita-se: À ARTE! PERO, DONDÉ ESTÁS?
Quando a poesia começa a se escrever,
dentro ou fora do papel, a arte escondida fica em primeiro plano.
Porque a poesia é a arte inteirinha.
Mesmo que você não possa ver nem tocar.
Às vezes não dá nem pra ouvir.
Porque, às vezes, poesia não é escrita com papel e caneta.
Às vezes poesia não gosta de usar as palavras.
Se encontra no corpo da arte que paira no ar e cola.
Esse é um grande efeito da arte:
Ser grande ou pequenininha, mas se fazer inteira dentro e fora.
Porque a arte tá dentro e fora dos quadros, músicas, textos.
Ela gosta de ser desfeita e se recompor.
Porque a arte tá em poetizar.
Não precisa ser em prosa, nem em verso, nem em papel, nem com caneta.
Seja a poesia o que for.
sábado, 27 de novembro de 2010
Céu e Mar
O que divide o mar do céu é uma linha, que vivo tentando andar sobre.
Mas o que acontece é que ninguém consegue andar sobre as águas.
Tampouco, quando viro de cabeça pra baixo, consigo andar sobre o céu.
O fio divide os azuis hora de forma precisa, hora de forma difusa.
Todos os dias os meus passos são conflitantes. Vou me equilibrando, tentando enganar a gravidade, mas ela é sempre mais esperta do que eu.
Me puxa pelo pé, suspenso no ar.
Às vezes caio dentro d'água e me afogo no oceano. Outras vezes mergulho para dentro do firmamento e vou subindo como um balão de oxigênio.
Quando os meus olhos se abriram, e tudo estava azul, pude ver.
Vi com os olhos de quem só queria enxergar o azul, mas tinha um pequeno borrão no meio.
É dificil entender quando nos traímos mais. Se são os olhos que atrapalham, ou se é o músculo pulsante de dentro do peito que turva a visão.
Talvez eu possa ser honesta comigo e, pelo menos me perguntar, onde foi que me traí?
Foram os olhos. Foi a mancha no tecido azul. Foi o céu que me acolheu, suave e envolvente. Foi o mar que me sufocou, doce e ardente.
Todas as vezes que caio no mar ou no céu viro água. Viro ar. Me dissolvo.
Sou delicadamente absorvida, até que não exista mais diferença entre o que é sólido e o que só se pode sentir.
A grande delícia está nos momentos em que fui surpreendida pela força que não me deixa ser equilibrista e andar sobre um fio.
Dessa vez, quando caí, não sei bem se céu ou mar. Abri os olhos para me orientar. E, sem medo de me cegar, procurei pelo sol.
A manchinha escura se revelou, não sei se nos olhos ou dentro do peito, quando tentei voltar para o fio.
Ficou no meio da garganta, ou no meio da cabeça.
Outro sobressalto.
Entendi que não importava se era céu ou mar. Era aquilo.
Me acolheu, me envolveu, me beijou o rosto e fechei os olhos.
Não sei o que houve com o borrão. E nem comigo, toda azul.
Mas o que acontece é que ninguém consegue andar sobre as águas.
Tampouco, quando viro de cabeça pra baixo, consigo andar sobre o céu.
O fio divide os azuis hora de forma precisa, hora de forma difusa.
Todos os dias os meus passos são conflitantes. Vou me equilibrando, tentando enganar a gravidade, mas ela é sempre mais esperta do que eu.
Me puxa pelo pé, suspenso no ar.
Às vezes caio dentro d'água e me afogo no oceano. Outras vezes mergulho para dentro do firmamento e vou subindo como um balão de oxigênio.
Quando os meus olhos se abriram, e tudo estava azul, pude ver.
Vi com os olhos de quem só queria enxergar o azul, mas tinha um pequeno borrão no meio.
É dificil entender quando nos traímos mais. Se são os olhos que atrapalham, ou se é o músculo pulsante de dentro do peito que turva a visão.
Talvez eu possa ser honesta comigo e, pelo menos me perguntar, onde foi que me traí?
Foram os olhos. Foi a mancha no tecido azul. Foi o céu que me acolheu, suave e envolvente. Foi o mar que me sufocou, doce e ardente.
Todas as vezes que caio no mar ou no céu viro água. Viro ar. Me dissolvo.
Sou delicadamente absorvida, até que não exista mais diferença entre o que é sólido e o que só se pode sentir.
A grande delícia está nos momentos em que fui surpreendida pela força que não me deixa ser equilibrista e andar sobre um fio.
Dessa vez, quando caí, não sei bem se céu ou mar. Abri os olhos para me orientar. E, sem medo de me cegar, procurei pelo sol.
A manchinha escura se revelou, não sei se nos olhos ou dentro do peito, quando tentei voltar para o fio.
Ficou no meio da garganta, ou no meio da cabeça.
Outro sobressalto.
Entendi que não importava se era céu ou mar. Era aquilo.
Me acolheu, me envolveu, me beijou o rosto e fechei os olhos.
Não sei o que houve com o borrão. E nem comigo, toda azul.
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